terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Esperando

"No mais, estou indo embora"
Zé Ramalho

Existe a obra de arte, o observador e as duas coisas juntas. Tudo está virando uma obra de arte que contempla a si mesma. Não sei mais o que depende de mim, se é que algo depende de mim. Se sim, é melhor eu acordar pois a bola de neve está se tornando invisível e minha casa está cada vez mais exposta.

2 comentários:

lorena disse...

Eu acho que existe a obra de arte e existe o observador; as duas coisas juntas é a própria obra de arte. "A perspectiva faz o objeto", já disse algum crítico-pensador-whathefuck cujo nome evaporou da minha cabeça. Em suma, a arte nunca exclui, mesmo no seu cerne mais abstrato, o observador.

Entendo o que queres dizer. "Uma obra de arte que contempla a si mesma" é uma das melhores imagens para a solidão do artista contemporâneo que eu já vi, mesmo que não tenhas usado pra isso. Esta não é apenas a solidão da falta de público: é aquela solidão resultante da devastação (não sei que nome dar a essa devastação) depois da qual à arte só restará um mísero ponto como lugar no espaço, em que todos os elementos se condensam e se fecham (homem-autor, homem-homem, público, obra de arte), sem contexto, sem parâmetros, sem horizonte, sem ponto de vista, uma maciça esfera fechada para dentro, logo, sem a possibilidade de ter valor atribuído algum. O Caos. O nada.

Claro que só usaste a obra de arte como ponto de partida para falar de algo maior. Mas acho que analisando apenas a arte dá pra ter uma noção do todo; na arte tudo fica evidente, ela é como a febre, sintomática das inflamações do corpo físico.

Também não sei se ainda depende de ti, ou de mim, ou de quem.

lorena disse...

Posso divagar ainda mais?

Se a arte tá perdendo lugar, tendendo a tornar-se um mínimo ponto, é porque algo a está substituindo; esse algo é de outra natureza, que não serve às mesmas funções que as artes serviam (e ainda servem moderadamente, indo para regular).

A quase totalidade da literatura contemporânea é um lixo. O "quase" é um espaço em branco que eu deixo em sinal de esperança, mas não tem realmente dono, não parece ter. E, se as artes em geral são sintomáticas de todo o meio, a literatura que o diga.
A coisa tá feia. Intelectualmente? Mas intelectualmente não funciona sozinho. A coisa tá feia. Tá nas mãos de quem? Tá feia...

Lá vem a bola de neve, eu vou, humilde e despretensiosamente, terminar de ler meu livro.